Domingo, 17 de Junho de 2012

ARTIGO DE JACQUES AMAURY, ACERCA DE PORTUGAL

 

 

ARTIGO DE JACQUES AMAURY,

 

SOCIÓLOGO E FILÓSOFO FRANCÊS, ACERCA DE PORTUGAL

 

Um artigo de Jacques Amaury, sociólogo e filósofo francês, professor na

Universidade de Estrasburgo.

 

"Portugal atravessa um dos momentos mais difíceis da sua história que terá

que resolver com urgência, sob o perigo de deflagrar crescentes tensões e

consequentes convulsões sociais.

 

Importa em primeiro lugar averiguar as causas. Devem-se sobretudo à má

aplicação dos dinheiros emprestados pela CE para o esforço de adesão e

adaptação às exigências da união.

 

Foi o país onde mais a CE investiu "per capitae o que menos proveito retirou.

Não se actualizou, não melhorou as classes laborais,  regrediu na qualidade da educação,

vendeu ou privatizou mesmo actividades primordiais e património que poderiam

hoje ser um sustentáculo.

 

Os dinheiros foram encaminhados para auto-estradas, estádios de

futebol, constituição de centenas de instituições público-privadas,

fundações e institutos, de duvidosa utilidade, auxílios financeiros a

empresas que os reverteram em seu exclusivo benefício, pagamento a

agricultores para deixarem os campos e aos pescadores para venderem

as embarcações, apoios estrategicamente endereçados a elementos ou a

próximos deles, nos principais partidos, elevados vencimentos nas classes

superiores da administração pública, o tácito desinteresse da Justiça

 frente à corrupção galopante e um desinteresse quase total das Finanças no

que respeita à cobrança na riqueza, na Banca, na especulação, nos grandes

negócios, desenvolvendo, em contrário, uma atenção especialmente

persecutória junto dos pequenos comerciantes e população mais pobre.

 

A política lusa é um campo escorregadio onde os mais hábeis e corajosos

penetram, já que os partidos cada vez mais desacreditados, funcionam

essencialmente como agências de emprego que admitem os mais

corruptos e incapazes, permitindo que com as alterações governativas

permaneçam, transformando-se num enorme peso bruto e parasitário.

Assim, a monstruosa Função Publica, ao lado da classe dos professores,

assessoradas por sindicatos aguerridos, de umas Forças Armadas

dispendiosas e caducas, tornaram-se não uma solução, mas um factor de peso

nos problemas do país.

 

Não existe partido de centro já que as diferenças são apenas de retórica,

entre o PS (Partido Socialista) e o PSD (Partido Social Democrata), de

direita, agora mais conservador ainda, com a inclusão de um novo líder,

que tem um suporte estratégico no PR e no tecido empresarial abastado

Mais à direita, o CDS (Partido Popular), com uma actividade assinalável, mas

com telhados de vidro e linguagem pública, diametralmente oposta ao que os

seus princípios recomendam e praticarão na primeira oportunidade.

 

À esquerda, o BE (Bloco de Esquerda), com tantos adeptos como o anterior,

mas igualmente com uma linguagem difícil de se encaixar nas recomendações

ao Governo, que manifesta um horror atávico à esquerda, tal como a

população em geral, laboriosamente formatada para o mesmo receio.

Mais à esquerda, o PC (Partido comunista) menosprezado pela comunicação

social, que o coloca sempre como um perigo latente e uma extensão

inspirada na União Soviética, oportunamente extinta, e portanto longe das

realidades actuais.

 

Assim, não se encontrando forças capazes de alterar o status, parece que a

democracia pré-fabricada não encontra novos instrumentos.

 

Contudo, na génese deste beco sem aparente saída, está a impreparação,

ou melhor, a ignorância de uma população deixada ao abandono, nesse

fulcral e determinante aspecto. Mal preparada nos bancos das escolas, no

secundário e nas faculdades, não tem capacidade de decisão, a não

ser a que lhe é oferecida pelos órgãos de Comunicação. Ora e aqui está o

grande problema deste pequeno país; as TVs as Rádios e os Jornais, são

na sua totalidade, pertença de privados ligados à alta finança, à

industria e comercio, à banca e com infiltrações accionistas de vários

países.

 

Ora, é bem de ver que com este caldo, não se pode cozinhar uma

alimentação saudável, mas apenas os pratos que o "chefe" recomenda.

Daí a estagnação que tem sido cómoda para a crescente distância entre

ricos e pobres.

 

A RTP, a estação que agora engloba a Rádio e TV oficiais, está dominada

por elementos dos dois partidos principais, com notório assento dos

sociais-democratas, especialistas em silenciar posições esclarecedoras e

calar quem levanta o mínimo problema ou dúvida. A selecção dos

gestores, dos directores e dos principais jornalistas é feita

exclusivamente por via partidária. Os jovens jornalistas, são

condicionados pelos problemas já descritos e ainda pelos contratos a

prazo determinantes para o posto de trabalho enquanto, o afastamento

dos jornalistas seniores, a quem é mais difícil formatar o processo a pôr

em prática, está a chegar ao fim. A deserção destes, foi notória.

 

Não há um único meio ao alcance das pessoas mais esclarecidas e por

isso, "non gratas" pelo establishment, onde possam dar luz a novas

ideias e à realidade do seu país envolto no conveniente manto diáfano

que apenas deixa ver os vendedores de ideias já feitas e as cenas

recomendáveis para a manutenção da sensação de liberdade e da prática

da apregoada democracia.

 

 

Só uma comunicação não vendida e alienante, pode ajudar a população, a

fugir da banca, o cancro endémico de que padece, a exigir uma justiça mais

célere e justa, umas finanças atentas e cumpridoras, enfim, a ganhar

consciência e lucidez sobre os seus desígnios.

publicado por raiodemundo às 18:01
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