Terça-feira, 25 de Setembro de 2007

A brincar a brincar

Num destes e-mail que recebemos entre amigos por brincadeira, e a brincar a brincar se diz verdades, não posso deixar de aqui reproduzir:
Vá lá meninos, vamos todos ser bons cidadãos...
Leiam como, abaixo e façam por isso!
 
O bom cidadão
por Pedro Barroso
 
O BOM CIDADÃO é um herói do Estado. Só com ele, o Estado se reforça e
pode virtualmente planificar o futuro da Sociedade. Se todos ajudassem e
aprendessem com este texto exemplar, cumprindo as suas obrigações de
cidadãos, o futuro de todos nós seria muito melhor. E a poupança do
Governo proporcionaria bem-estar e felicidade a um número mais alargado
de portugueses. Infelizmente, nem todos compreendem os deveres de
lealdade à Nação e desviam-se nos mais diversos detalhes e vícios de uma
carreira ordeira, obediente e conforme.
 
O bom cidadão nasce sem incomodar demasiado o Estado, para não fazer
despesas desnecessárias com fórceps ou cesarianas. Deve, pois, nascer
preferencialmente numa cidade desenvolvida e litoral, onde já existam
infra-estruturas integradas, para não obrigar à construção de piscinas,
mercados, escolas, maternidades, pavilhões ou hospitais escusados.
 
Se o jovem cidadão nascer em sítios isolados, a sua escola terá decerto
poucos alunos e a sua educação dará prejuízo ao Estado, por manifesto
desajuste entre o excesso de mão-de-obra e a tão pouca massa discente. É
sempre de evitar.
 
Como aluno, crescerá sem temeridades nem excessos, estudando no limite
da sua inteligência, mas sem ambições estranhas nem perigosas, tais como
bolsas no estrangeiro ou outros excessivos incentivos. Admite-se que o
cidadão, enquanto jovem, faça desporto em estruturas já existentes, mas
é recomendável que saiba conter-se em gastos, hábitos, acidentes e
doenças, poupando ao Estado radiografias e Betadine.
 
Serão, aliás, costumes de muita utilidade para o seu futuro. A
parcimónia é uma virtude.
 
O bom cidadão emprega-se cedo e paga os seus impostos. Cinquenta por
cento do que ganhar deve ser para o Estado, para que muito justamente
este lhe retribua com pontes e estradas com portagens, guichets e
Repartições variadas, cujas servem justamente para nelas pagar os
referidos impostos, os selos e as taxas recomendadas e exigidas pelas
necessidades da Nação.
 
Na opinião, o cidadão é moderado. Conciliador.
 
Poderá revelar, até, um criticismo parcial, se o exprimir de forma
civilizada no exercício soberano do seu voto consciente. É o seu acto
maior de intervenção cívica. Deve cultivá-lo.
 
O cidadão deve também compreender e acatar as regras da estrada,
circular no máximo a 120 km/hora nas auto-estradas e a 50 km/hora nas
localidades. Respeitar os seus superiores e as Autoridades e confiar em
geral que todo o sistema montado pelo Estado serve para o proteger e ajudar.
 
A compacta vivência dos transportes colectivos em hora de aperto deve
ser entendida como uma sempre agradável prática sensorial de aproximação
e intimidade, onde poderá, até, vir a gozar de muito interessantes
experiências de contacto humano, sempre enriquecedoras.
 
Terá direito a 25 dias de férias por ano e a férias matrimoniais,
maternais e por nojo ou luto de seus entes queridos, patrocinadas pelo
sempre compreensivo Patronato.
 
O bom cidadão não se mete em desordens, nem participa casos de Polícia,
para não incomodar estruturas cívicas, como os Tribunais. Com efeito,
estas instâncias estão já assoberbadas com demasiados casos, bem mais
urgentes que o roubo da sua carteira ou o assalto por esticão da sua
incauta avó. Os Tribunais são estruturas pesadas e dispendiosas que deve
evitar-se accionar e se aplicam apenas para conflitos maiores.
 
Por esse motivo, o cidadão deve, desde cedo, aprender que o crime de
assalto, o risco no carro ou as pequenas injustiças que sofrer no dia a
dia são apenas encaráveis como impostos indirectos num Estado de
Direito, e que têm de se suportar com paciência e estoicismo, pois fazem
parte da vida.
 
O bom cidadão tem a temperança de um muito acreditar que se tornou
desacreditar.
Não é, por isso, nem demasiado efusivo na celebração, nem demasiado
pessimista na derrota. Entende que a vida tem altos e baixos, é preciso
compreender e conformar-se com isso. O bom cidadão é, pois, sorumbático.
 
Compete também ao bom cidadão presenciar as cerimónias públicas e
aplaudir. São eventos sempre agradáveis, tais como inaugurações de
pontes e mercados, tomadas de posse, visitas ministeriais, etc., com a
vantagem de serem gratuitas, frequentadas por gente influente e sempre
muito instrutivas.
 
O cidadão correcto reclama moderadamente ao ouvir os telejornais, mas
compreende os esforços de todos os governantes para o bom funcionamento
da República, pelo que tolera os erros de gestão, a má prática, a
assistência tardia, a bicha nos serviços, o prazo do despacho, a
extinção da Maternidade, até os ordenados dos futebolistas.
Perdoa tudo, pois reclamar é sempre feio e raramente conduz ao que quer
que seja.
 
O bom cidadão, de resto, deve ser recatado e pouco expansivo, pois os
limites sonoros devem ser sempre acatados, e os excessos temperamentais
podem provocar doenças graves como AVC’s, picos de tensão alta,
apoplexias várias, neurose, depressão, etc.
 
Os seguros aumentam, mas o cidadão deve pagá-los.
 
Os impostos aumentam, mas o cidadão deve pagá-los, sem reserva. Até os
lucros da Banca, as taxas de juro, os spread’s e euribores e outras
coisas, mesmo que não saiba exactamente o que são. Para o seu bom nome
se manter, o cidadão deve pagar tudo isso atempadamente. A gasolina, as
portagens, a taxa moderadora, a prestação do frigorífico, da casa, do
carro. Pagar.
 
O bom cidadão declara tudo o que ganha, mesmo as gorjetas.
 
Compete ainda ao bom cidadão ajudar nos peditórios para o cancro, a
lepra, a sida, a epidermólise bolhosa, a tuberculose e os Bombeiros pois
são, obviamente, casos imprevisíveis que, numa sociedade ideal, não
existiriam e não seriam necessários.
De facto, o Estado não pode, compreensivelmente, acorrer a todos os
desleixados que se deixam indevidamente apanhar pelas mais dispendiosas
e graves doenças, nem é sua culpa que tenham adoecido ou que os
Bombeiros queiram viaturas novas. Há, pois, que sentir solidariedade
pelos seus concidadãos afectados e ajudar sempre, generosamente.
 
O bom funcionário é a extensão óbvia do bom cidadão.
 
O bom funcionário é aplicado, pontual, educado e reside na área de
trabalho, para não gastar demasiada energia pública no eléctrico ou
autocarro e contribuir para um bom ambiente e para a diminuição do
buraco de ozono.
 
Alias a consciência ecológica é um dever do bom cidadão. Deve pôr os
vidros no vidrão; os cartões bem limpos nos receptores de cartão; as
embalagens depois de devidamente lavadas no recipiente adequado. O bom
cidadão decora as cores dos ecopontos modernos e funcionais,
contribuindo para uma mais rápida triagem da parte das lucrativas
empresas de aproveitamento de resíduos sólidos, que, obviamente, não
podem estar a perder tempo com porcarias e lixo sujo e mal encaminhado.
 
O cidadão exemplar mantém-se até ao limite previsto no seu posto de
trabalho - mesmo que sinta alguma dificuldade em lembrar-se onde fica -
e morre aos sessenta e cinco anos de idade, depois de uma vida de
descontos. Isto para que a Segurança Social lucre com ele, e não tenha
que o sustentar em dependências sempre egoístas e evitáveis que
prejudicam o conjunto da Nação e retiram credibilidade ao sistema.
 
Para quê gozar de paz e reforma antecipada quando ainda se sente
motivação e vontade de viajar e usar a vida? Todos sabemos que orgias e
comezainas ou viagens prolongadas não são indicadas para a terceira idade.
 
O bom cidadão fica em casa com a sua reforma olhando a televisão, até
morrer.
Com raras e discretas deslocações à farmácia mais próxima. E ao
cemitério, por uma questão de aclimatação prévia.
 
O bom cidadão é triste
cumpridor e exemplar.
 
Ajude o Estado a servi-lo melhor.
Morra cedo.
 
O Estado ama o bom cidadão.
sinto-me:
publicado por raiodemundo às 22:25
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